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"Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro amanhã, portanto hoje é o dia certo para acreditar, fazer e principalmente viver." Dalai Lama

Thursday, November 17, 2005

Ode ao Norte...


Encontrei este texto...
Quero partilhá-lo convosco...
Enfim, sou do NORTE...

"(...)No norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que é do Sul como se diz que é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
(...)No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.
(...)O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque era do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e cabeça quente, os seus pedaços e pormenores.Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o “O Norte”. Defendem o Norte em Portugal como os portugueses haviam de defender Portugal no mundo.Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, com nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer “Portugal” e “Portugueses”. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como “Norte”. Como se fosse assim que chamassem uns pelos os outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?"

in "Norte, Nome de Portugal", Miguel Esteves Cardoso, Revista Capa K, Novembro 1990

1 Comments:

  • At 11:19 PM, Blogger Venus as a boy said…

    "Dizem no norte: os do norte é que são bons
    dizem no sul: os do sul é que são bons
    dizem no campo: nós é que somos os bons
    dizem na cidade: nós é que somos os bons
    bem, para isto não ficar
    numa canção em dois tons
    vou tentar abreviar
    somos todos muito bons! (...)

    Gente do sul, gente do norte
    gente que quer sais do nada
    há uma classe exploradora
    e há uma outra que é explorada.

    Gente do campo, gente da cidade
    gente que quer sais do nada
    há uma classe exploradora
    e há uma outra que é explorada.(...)

    Quem é que explora toda esta rivalidade
    quem tem nas mãos, sul, norte, campo, cidade
    quem é que puxa
    os cordelinhos da gente
    nos põe na boca uma chucha
    e nos empurra para a frente.

    A pôr fronteiras entre Minhos e Sados
    ainda acabamos todos encurralados
    a fazer manguitos
    ao irmão do outro lado
    e a gritar: estamos quites
    lixaste-me e estás lixado. (...)"

    Sérgio Godinho

     

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